Sexta-feira, Janeiro 20, 2012

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Quatro dias. Permaneceu o leite na caneca. A secretária ganhou o pó das horas. As arestas dos livros, da secretária, suavizaram-se com a queda do cotão. No quarto, passei o dedo pela madeira escura que escureceu a minha impressão digital. Fiquei momentaneamente sem identidade. Afastei a caneca, ficou um círculo. Um halo. Desenhei com os dedos vários segmentos de pó. Há quem diga que parece um sol, eu digo que parece um mapa. O circulo é o culminar das linhas, da falta de identidade. Pintei dez rectas, uma com cada impressão digital. Mas o leite permaneceu branco, pálido, com uma tensão superficial de plástico artificial. Pensei em bebe-lo. Estava perfeito, com o reflexo da janela. Como se a janela escorresse pela própria parede e tivesse mergulhado no leite. Toco-o com as impressões digitais. Mergulho um dedo, depois o outro, depois o outro, depois o outro só falta o polegar. Senti as impressões digitais escorrerem. Fiquei sem arestas nos dedos. Sinónimos de ser. Picar o ponto, como é que vou picar o ponto, assombrou-me. Restava-me o polegar, restava-me o único dedo que me afastava da animalidade.

Quarta-feira, Dezembro 21, 2011

ALone

É nestas alturas que se consegue ouvir os sons,
Ouvir os sons dos vizinhos,
Dos carros a passar.
É nestas alturas que se ouvem os ecos
Surdos e abafados do arrastar de móveis.
É nestas alturas em que o tempo se enche.
Deixa de estar dividido por dois,
Divide-se só por um.
Matematicamente inútil.

Resta apenas um espaço vazio. Mais um espaço vazio.
Mas como nunca esteve.
Como uma casa em mudanças,
Os espaços vazios parecem muito maiores agora sem móveis.

Olho para a parede imóvel.
Olho para a fronte branca e rugosa
E fria.
Queria que esta parede fosses tu.
Que estes espaços vazios fosses tu.
Em mim fosses tu, como nunca.